A mania da economia

Como certamente sabem, nos restaurantes como em nossas casas, nada se deita fora. (A não ser que um chef mais distraído ou porquinho se esqueça de uma tabuleiro de filé mignon no frigorifico até eu dar com ele já a mudar de cor.)
Num outro post hei de contar-vos como calculamos o custo dos pratos e de como tudo ou quase tudo numa cozinha deve ser aproveitado, mas hoje deixem-me falar-vos da nossa sopa de peixe.

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A sopa de peixe no nosso restaurante é o equivalente aos rissóis em nossas casas, um prato para aproveitar as sobras de peixe que temos quando filetamos e cortamos em porções peixe para o almoço e o à lá carte.

Devia ser um prato com custo zero em proteína, rápido de preparar e que fosse o mais económico possível, mas claro que não é.

E não é porque tudo, do caldo de lagostim ao óleo de endro é feito por nós e demora horas e horas.
O head chef teve também a ideia peregrina de acrescentar camarões à sopa e portanto o que começou como um prato de aproveitamentos, o que aproveita na realidade é o peixe, tudo o resto é comprado e preparado unicamente para a sopa.

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Ainda assim esta é uma sopa excelente, está no menu há um ano e é um dos pratos que mais vendemos. (O head-chef nega-se a tirar a sopa do menu porque ainda não se lembrou de outro aproveitamento para o peixe, e nós continuamos a ferver panelões sem fim de cascas de lagostins.)

Qualquer dia partilho convosco as nossas receitas de caldos: peixe, lagostim, vitelo, galinha… todos feitos no restaurante, mas tenho pensado que fotografias de enormes panelas cheios de ossos a ferver talvez não façam as fotografias mais bonitas.

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E a receita, ligeiramente adaptada às cozinhas caseiras.

Ingredientes: (4 pratos)
1 litro de caldo de lagostim ou lagosta (comprem já feito, de loucura já basta o restaurante)
2 dl de Vinho branco
Óleo ou azeite
200 gramas de uma mistura de cenouras, cebolas e funcho picados
Peixe e camarões a gosto
Batatas cozidas
1 litro de leite (ou uma mistura de leite e natas)
Sal e pimenta
Folha de louro
Sementes de endro
Sementes de coentros.
1 colher de sopa de pasta de tomate

Óleo de endro:

O mesmo peso de endro fresco e óleo alimentar neutro.
Preparação do óleo

Esta receita é ideal para quem tem uma bimby. De outra forma um copo misturador também serve.
Batam os ingredientes até conseguirem um óleo verdinho e lindo se tiverem a bimby, aqueçam este óleo até 73 °C.
Passem por um passador fino e um pano limpo de cozinha, guardem num frasco bem fechado nos vossos frigoríficos.
Preparação da sopa:
Salteiem os legumes e os aromáticos num pouco de óleo. Acrescentem o puré de tomate. Juntem o caldo de lagostim e o vinho branco e deixe reduzir até deixarem de sentir o álcool. Passem todo este preparado por um passador de rede fina.
Deitem fora os vegetais e aromáticos reservem apenas o líquido.
Levem o líquido que reservaram ao lume, acrescentem as natas ou leite e retifiquem os temperos, Antes de servir juntem o peixe (que coze muito rapidamente) as batatas e os camarões.
Sirvam com o óleo de endro e endro fresco.

Borscht e ataques ao frigorífico

Já com a segunda edição quase a fechar as portas e eu ainda com um convidado para receber, lembrei-me que tinha  por publicar parte do jantar do mês passado como Lestat.

Borscht é uma sopa tradicional de vários países europeus e tem como principal ingrediente a beterraba. Escolhi-a para o jantar com Lestat não só pela sua cor como por ser um prato típico também da Roménia onde se chama Bors. Desta sopa existem versões quentes e frias, com carne, peixe ou apenas legumes.

Adoro beterrabas, assadas com um pouco de queijo de cabra e umas nozes, cozidas e feitas em saladas com muito azeite e vinagre, em sopas e até em conserva. Num ataque de fome, quando abrimos o frigorífico com a mão direita, e com a esquerda acariciamos o estômago como que a perguntar-lhe o que lhe apetece, são as beterrabas que imediatamente me tentam.

Tenho, e é com vergonha que vos  admito, o péssimo hábito de comer beterrabas em conserva directamente do frasco. Penso que é a combinação entre o sabor tão suave e doce da beterraba com líquido dos pickles ácido e muito salgado, que me faz a perder a cabeça (e as boas maneiras). Os pepinos de conserva por aqui também não duram muito, porque eu os como à dentada, com a mesma vontade e gula de quem devora uma peça de fruta madurinha. Será isto estranho? Quando fazem um raid ao frigorífico, quais são as vossas primeiras vítimas?

A minha receita  de Borscht tenta combinar essa acidez de que tanto gosto, com o conforto de uma sopa quentinha e tentadoramente bela   que acompanhada de um  pouco de pão com manteiga de alho e endro, faz um jantar perfeito. Se puderem assar os legumes antes de preparem a sopa, tanto melhor.

Ingredientes: (para um viking, um vampiro e uma padeira)

  • 2 beterrabas
  • 1 cenoura
  • 1 cebola roxa
  • 1 courgette
  • ½ bolbo de funcho, com as folhinhas e tudo, ou um raminho de endro
  • Sal e pimenta
  • Água ou caldo de legumes
  • Azeite
  • 1 beterraba em conserva
  • Um pouco de vinagre ou do líquido das beterrabas de conserva
  • Sourcream
  • Endro ou umas folhinhas de funcho para decorar

Preparação:

Se não assaram os legumes, limpem-nos e cortem-nos em pedacinhos (expecto o endro se os estiverem a usar). Coloquem-nos numa panela com um pouco de azeite, temperem com sal e pimenta e refoguem-nos muito levemente. Acrescentem a água a ferver e o endro, cozinhem até os legumes estarem tenros. Antes de passar a sopa na varinha mágica, juntem a beterraba de conserva. Ao puré acrescentem vinagre ou um  pouco de líquido da conserva de beterrabas se quiserem dar-lhe um toque ácido. Decorem com sourcream ou um pouco de iogurte, endro, e sirvam.