Dammsugare & Arraksbollar (ssk 1 e 2)

Quando era pequena e a minha mãe tinha o poder de decisão sobre o que eu podia ou não comer, raramente me era permitido comer uma Pirâmide,  o que eu gostava, e gosto, de Pirâmides.

  O argumento da minha mãe, e de muitas outras tenho vindo a descobrir, de que era um bolo velho feito com restos de outros bolos, hiperbolizava-se na minha imaginação com a imagem de empregados de café a rasparem restos de bolos dos pratos dos clientes para um grande recipiente de onde sairiam, depois de muitas misturas, as Pirâmides, lindas, cobertas de chocolate estaladiço e com uma coroa de chantilly e cerejinha em calda.

 O dammsugare (aspirador), um dos mais apreciados bolinhos da Suécia, é conhecido também por uma série de outros nomes: rolo de ponche, rolo de arak, tronco, bobina, fusível…

 O equivalente sueco da nossa Pirâmide (que por acaso é um cone), prepara-se com o mesmo tipo de massa e restos de bolos ou bolachas. Tradicionalmente os rolinhos são embrulhados numa tirinha verde de maçapão e mergulhados em chocolate. Hoje podemos encontrar  outras variedades, tanto de recheio, como de cobertura, dammsugare com chili  e cobertura de maçapão vermelho, dammsugare de Natal, aromatizados com gengibre e cobertos de chocolate branco…

Com a receita básica podemos fazer dois bolinhos diferentes: arraksbollar (bolinhas) e arraksrullar ou dammsugare (rolinhos).

Ingredientes:

Manteiga – 100 gramas

Açúcar – 1 dl

Açúcar baunilhado – 1 cdc

Cacau em pó – 2 cds

Aparas de bolos ou bolachas picadas – 3 dl (usei 5 dl, penso que terá a ver com quanto secas estão as migalhas ou aparas de bolo)

Arak ou outra bebida a gosto para aromatizar (como não tinha arak em casa usei Xerez)

Para as bolinhas – amêndoas picadas ou chocolate granulado

Para os rolinhos – maçapão e chocolate de culinária em barra

Preparação:

Misturar todos os ingredientes até se obter uma pasta. Dividir a massa em duas partes, formar dois rolos e colocar durante pelo menos 15 minutos no frigorifico.

Para os rolinhos:  Cortar a massa em pequenos rolos (+/- 5 cm) decorar com uma tirinha de maçapão e mergulhar os cantos em chocolate derretido

Para as bolinhas: dividir os rolos em pequenas fatias e formar com elas bolinhas que se envolvem em amêndoas picadas ou chocolate granulado.

Sju sorters kakor – o livro

 Apresentado como o livro mais vendido na Suécia, pelo menos até à chegada de Stieg Larsson, (3 570 000  exemplares).

Leiam mais sobre o que significa Sju Sorters Kakor aqui.

 A primeira edição surgiu na sequência de um concurso lançado pela revista ICA courier no início de 1945. ( Ica é uma cadeia de supermercados na Suécia) Mais de 8.000 receitas foram submetidas, das quais o ICA escolheu as que achou melhores. Ao longo das 91 edições várias receitas foram sendo alteradas e introduzidas no livro.  Ao todo são mais de 300 receitas de biscoitos, bolos, pão branco, bolos, doces, biscoitos, bolos, pães, doces, bolos, bolachas e biscoitos, tanto  antigas e tradicionais como novas.

Sju sorters kakor – a comida e a cultura sueca dos bolinhos e do café

Sju sorters kakor refere-se a um antigo conceito de etiqueta sueca, conhecido desde o século XIX segundo o qual, durante aquilo a que os suecos chamam kafferep, um encontro social apenas entre mulher para comer e pôr a conversa em dia, se devia servir com o café um mínimo de sete “sju” tipos”sorters” diferentes de bolinhos ou bolachas “kakor”. Em 1720 existiam em Estocolmo quinze “Kaffehus” (cafés), onde se servia café e pão de trigo segundo a moda francesa. No entanto o consumo de café foi por vezes proibido. Até ao século XIX não se fazia o cultivo em grande escala de trigo. Quando o consumo de café voltou a ser permitido começou a ser servido acompanhado de pequenos bolinhos “småkakor”, mas para as pessoas comuns os ingredientes para estes bolos ou bolachas eram de modo geral demasiado caros. A profissão de padeiro existe na Suécia desde a Idade Média e preparavam principalmente uma espécie de “pretzels”, o que se fazia também no resto do continente europeu desde o século V. As “pepparkakor”, a bolacha nacional da Suécia, conhecida entre nós como “bolos de gengibre”, faz-se desde 1444 tendo a primeira receita surgido num convento em Vadstena. Mais e mais receitas de bolos e bolinhos foram aparecendo ao longo do século XIX, e uma certa competição entre as donas-de-casa que recebiam as amigas para o café, foi provavelmente a razão pela qual se começou também em casa a servir um mínimo de sete receitas diferentes de bolinhos.

Julie&Julia

Nem  de propósito vi ontem um filme, recomendado via skype pelo meu irmão com quem partilho a paixão das experiencias na cozinha. Julie&Julia, o filme não é fantástico, mas Julia Child e Merly Streep na mesma pessoa, é um acontecimento que quem se interessa por filmes e comida não deve perder.

Agora o que me irrita é a personagem/autora/blogger Julie Powell. Primeiro porque é uma parva, depois porque, com a sua ideia peregrino – idiota  de cozinhar 524 receitas em 365 dias, conseguiu transformar a  excitação que quem gosta de cozinhar sente na escolha e preparação de um prato novo, numa maratona típica de uma pessoa que, mais do que gostar de correr, quer chegar à meta.

Eu tinha decidido preparar todas as receitas do livro sueco Sju sorters kakor, e tenciono fazê-lo, mas não me passa pela cabeça fechar-me em casa durante um ano, a enfardar bolacha atrás de bolacha, com o intuito de concluir uma tarefa. Porque não é de facto uma tarefa, não é uma missão, nem uma causa pela qual me vejo obrigada a lutar, é um prazer que me concedo quando tenho o resto de todas as outras coisas que fazem a minha vida arrumadas e me posso dar o  luxo de umas horas passadas sozinha na cozinha.

O grande degelo

Depois do casamento, das férias e do descanso a que teve direito o meu forno provocado pelo início de um novo semestre, volto a abrir os meus livros de receitas e a imaginar uma vida  onde a farinha tomou o lugar da Teoria da Literatura.

Estamos em Março, começou o grande degelo que, espero, derreta a neve do pior Inverno na Suécia dos últimos vinte anos. Para mim, este Inverno foi especialmente difícil, e nem estar à janela do meu quarto enquanto nevava a ver a pastelaria do outro lado da rua, ou o cheiro a pão fresco  que quase todos os dias sinto quando faço o percurso da paragem de autocarro até casa, me animaram.

Em desespero de causa o meu viking ofereceu-me na última semana dois livros com os quais tenho sonhado desde cheguei à Suécia. O primeiro,  Rutiga kokboken é uma actualização  de um antigo livro de receitas que infelizmente deixou de se imprimir e do qual a minha sogra tem ainda um exemplar que adoro folhear quando a visitamos. Propositadamente pergunto à mãe do viking como se faz determinada receita, apenas com o fito de a ver ir buscar o livro.   Com orgulho traz para a mesa da casa de jantar a bíblia da cozinha sueca, grande, de folhas meio castanhas, fotografias talvez dos anos cinquenta a preto e branco, e acima de tudo, cheio de apontamentos feitos à margem das páginas das receitas experimentadas.

O segundo é Sju Sorters Kakor, Sete tipos de bolinhos.

Há uns anos, quando um este livro foi traduzido para o inglês, comprei  vários exemplares que ofereci à família em Portugal, mas durante todo este tempo tinha resistido a comprar um só para mim, em sueco, à séria, com todos os verbos  dos quais ainda desconheço o significado, e cheio de ingredientes que nunca utilizei.

Usando como desculpa a necessidade de melhorar o meu sueco, e ao mesmo tempo de me preparar para o curso de padaria e doçaria que algum dia hei-de tirar, combinei com o viking que vou experimentar, e traduzir para o português, todas  as receitas do livro.