A minha vida na Suécia · livros

A Suécia de Astrid Lindberg

Já aqui vos confessei como por vezes ainda me parece estranho viver na Suécia, ter um marido sueco, estar rodeada de neve, ouvir uma língua  que não é a minha, viver no país da Pippi e do Emílio.

A primeira vez que me lembro de ir ao cinema vi a “Pippi das meias altas”, um dos primeiros livros que li foi o Emílio.

Tenho-o aqui, a versão portuguesa de 1979, e o meu novo Nya hyss av Emil e Lönneberga – o primeiro livro que li em sueco. E não foi difícil, a verdade é que sei partes do livro de cor. Cresci a sonhar com as aventuras deste rapazinho loiro de espingarda ao ombro e boné azul.  Há um episódio do livro dedicado ao Natal, e a ele voltarei mais tarde. Por agora, para os clientes que ainda não conhecem o Emílio, deixem-me ler um pouco do livro que religiosamente leio todos os Natais.

“Talvez já tenham ouvido falar do Emílio, que vivia na quinta de Katthult em Lönneberga, na região de Småland. Nuca ouviram? Bem, paciência! Mas em Lönneberga, garanto-vos eu, não há uma única pessoa que não conheça o “Terror de Katthult”. Fazia mais disparates do que dias tem o ano, e arreliava tanto as pessoas que os habitantes de Lönneberga, que elas o queriam mandar para a América. Sim senhor! Chegaram a juntar dinheiro e deram-no à mãe do Emílio, dizendo:

 – Talvez chegue para o bilhete do Emílio para a América.

Achavam que  Lönneberga ficaria muito mais sossegada sem o Emílio, e tinha razão, mas a mãe dele ficou furiosa, e atirou com o dinheiro todo para o chão.

-O Emílio é um bom rapazinho – disse ela. – Nós gostamos dele assim.

E a Lina, que era a criada, acrescentou:

 – E também temos de pensar nos pobres americanos, que nunca nos fizeram mal nenhum, não é justo mandarmos para lá uma peste como o Emílio!

Então a mãe do Emílio olhou para ela, franzido o sobrolho, e  a Lina percebeu que tinha dito uma asneira. Começou a gaguejar, e tentou remediar as coisas:

-Está bem minha senhora – disse ela, – mas o jornal traz a notícia daquele grande terramoto que está a arrasar a América. Mandar para lá o Emílio ainda por cima ia ser o Golpe de Misericórdia!

-Cala-te, Lina! – gritou a mãe do Emílio – vai para o estabulo mugir a vaca, disso percebes tu.

Por isso a Lina pegou no balde e foi para o estábulo arrastando os pés. Sentou-se e começou a mugir a vaca com toda a força. Trabalhava sempre melhor quando estava arreliada, e tirou da vaca muito mais leite do que era costume, ao mesmo tempo que ia resmungando:

-Mas eu tive razão quando disse aquilo. Os americanos não têm obrigação de sofrer ainda mais. De qualquer forma, eu trocava de boa vontade o meu lugar pelo deles, vou escrever-lhes uma carta a dizer: “Aqui vai o Emílio. Mandem-nos em troca o terramoto.”

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