Ana - cozinheira

O melhor ainda estava para vir – o folhetim de sábado – Parte II

No último episódio deixei-vos sábado à noite na Maçonaria, entrada servida. No Kramer um chef extra a trabalhar completamente às cegas, no Stortorget um dos chefs part-time da cozinha.

Assim que servimos a entrada, começámos a organizar o prato principal, comida no forninho, molho em jarros, frango fatiado, codornizes prontas….

No grande salão de festa havia já uma banda a tocar, e de vez em quando vinham umas senhoras à cozinha pedir qualquer coisa, imagino que a comando dos seus maridos.

Eu sempre imaginei que os maçons fossem pessoas mais old school, homens que mal se riem, habituados a conversas e planos de conquista do mundo enquanto bebiam conhaque e fumavam charutos.

Foi portanto com grande espanto que vi as indumentárias de algumas das suas esposas. Aprendi quando era miúda ainda que uma senhora, a não ser que o seu trabalho inclua cobrir o seu corpo de glitter, mostra as pernas ou o colo. Mas este memorando não chegou às esposas dos maçons. A mim pouco me interessa o que as outras pessoas vestem, mas um bocadinho de bom senso fica sempre bem.
Especialmente quando se passou dos sessenta, especialmente quando se entra numa cozinha cheia de chefs profissionais homens, um ambiente tudo menos apropriado a wonderbras, plumas e aberturas nos vestidos até às ancas.

Nickas no passe há uns meses
Nickas no passe há uns meses

E bom, voltamos ao jantar. Estamos na cozinha o head-chef – Tom, eu e os meus colegas Nicklas e o meu filho adoptivo Bjarne.
Pratos empilhados, eu encarregue do frango, o Nicklas com o puré de batata e as couves, Bjarne com as codornizes e por último o Tom com o molho.
Como imaginam servimos estilo linha de montagem e em minutos, porque todos têm de ter os pratos da mesa para poderem começar a comer ao mesmo tempo antes que a comida arrefeça.

Este, lembrar-se-ão era um jantar que devido às constantes reclamações, tinha de correr bem, eu havia até dito ao Tom que devíamos tirar fotografias para ter prova da comida que estávamos a servir, porque honestamente já não sabemos o que fazer…

Bjarne
Bjarne

E começa o serviço, O primeiro problema surge quando à cozinha chega a informação de que um convidado era vegetariano. Eu, eu com as mãos (de luvas) cheias de frango, eu nem queria acreditar. Porque como se lembram, já previa que alguma coisa deste tipo acabaria por acontecer….
E gritei para o serviço. “É vegetariano?! Mas a entrada foi arenque! É cegueta? Não viu que comeu um prato cheio de peixe?” “Ai não, é vegetariano mas come peixe” Ok…

O head-chef pega no telefone e pede ao chef que está na cozinha do hotel para cozinhar e trazer uma porção de peixe o mais rapidamente possível. E lá vem o desgraçado, à volta do quarteirão, pelo beco e escada acima com uma posta de pescada num prato. Mal ele chega, chegou também a informação de que um dos convidados não comia aves…. E corre o mesmo chef escada abaixo, pelo beco, à volta do quarteirão, direito à cozinha, grelha um bife… you get my point…

A esta altura, já estamos nós furiosos, mas o objectivo era servir todos, acabar o serviço, acabar o serviço.

Nicklas no dia que se transformou no Hulk.
Nicklas no dia que se transformou no Hulk.

E eis que com uns trinta pratos por servir, o impossível acontece, acabam-se as codornizes.
Não sei caros leitores como vos descrever este momento. O segundo em que o Bjarne, diz “Não há mais codornizes?!” E ao som “New York New York!” pelo grupo de baile de serviço, vejo a cara do head-chef mudar de cor e a gritaria começar.
Este é um blogue decente, mas já se está a ver que o que ele disse não foi “Então, Bjarne, esqueceste-te das codornizezinhas na outra cozinha foi? Estes senhores vão zangar-se connosco, vão vão…ai ai…estamos em apuros”

O Bjarne que é o mais novo da brigada, é um amor e nunca se aborrece com nada, mas perdeu a cabeça e desata numa gritaria a dizer que não tinha sido ele a trazer as codornizes, tinha sido o Nicklas!
Nicklas arranca escada abaixo, pelo beco, à volta do quarteirão, direito à cozinha e volta pelo mesmo caminho com um tabuleiro de codornizes geladas ainda com os cordelinhos tal e qual como eu as tinha preparado de manhã.

Head-chef, num bom dia
Head-chef, num bom dia

Eu tento calar o head-chef a todo o custo, porque o que não nos faz falta a esta altura é que reclamem também de gritos e palavrões na cozinha. E quanto mais lhe digo “Tom, por favor, não estamos na nossa cozinha, por favor, vai lá para fora acalmar-te”, mais ele grita que somos todos amadores e que ele não pode confiar em ninguém, entre outras preciosidades e elogios.

As codornizes chegam e são atiradas para o forno a 250 graus. Eu chamo a responsável do serviço e digo-lhe que vou enviar os pratos sem as codornizes para as pessoas não esperarem mais, e que todos devem ser informados que “devido ao tamanho do forno deles” temos de aquecer as codornizes por duas vezes, e é esta a razão oficial do atraso. Aproveito e digo-lhe também que arranque o Tom da cozinha, porque eu tenho de ficar e terminar o serviço.

Não sei se por terem bebido demais, se por não se dever ouvir nada no salão por causa da música, de alguma forma os maçons perdem a informação de que as codornizes já vão a caminho e enviam as suas esposas de plumas e mamocas em riste aos gritinhos histéricos para a cozinha reclamar que esta não tinha sido a comida que tinham encomendado.

Nós estamos também histéricos na cozinha, já atirámos a higiene, as pinças, e as boas maneiras ao vento e estamos sem luvas a tentar desatar as perninhas das codornizes acabadas de sair do forno.

Últimos pratos servidos, olho à nossa volta. A cozinha é uma zona de guerra, eu estou a transpirar que nem uma senhora de poucas virtudes na igreja, o Nicklas derrotado e triste porque se esqueceu de um tabuleiro de codornizes na outra cozinha (o que dadas as circunstâncias em que trabalhamos, não é de espantar), O Bjarne triste e cabisbaixo porque tinha gritado com o head-chef e acusado o Nicklas.

O Tom volta à cozinha quase sem voz (tomara), para nos dar palmadinhas nas costas, e dizer “bom trabalho”.
Eu distribuo abracinhos por todos, e para desanuviar ainda imito o head-chef na versão so-bremesa. “Onde **** está a minha bavaroise?? Quem foi o *** que se esqueceu da minha sobremesa? Agora é que estamos*****! Amadores ** ****!”

Ah, esperámos quarenta e cinco para servir a sobremesa, estavam a dançar, queriam esperar! Esperar de pé, numa cozinha sem ventilação, com a bavaroise a derreter e para cúmulo ter de ouvir “menina menina assim você me mata” com sotaque sueco, quando já estamos a trabalhar há 12 horas sem uma pausa foi o que de facto acabou com o resto do nosso bom humor.

À meia noite abandonámos a cozinha, calados, como se tivéssemos sobrevivido uma batalha de verdade. O pessoal do serviço ficou até às quatro da manha a servir bebidas e lavar loiça.

Hoje como já vos disse no facebook, é o meu dia de folga. Mas o trabalho não tem fim, mais jantares, mais grupos, mais banquetes….

Desculpem por não visitar os vossos blogues ou dar mais novidades. Esta tem sido uma semana terrível, segunda-feira um turno de 17 horas, ontem 10, hoje nem sei…chego quando chegar. Boa semana para todos, eu vou para o restaurante.

7 thoughts on “O melhor ainda estava para vir – o folhetim de sábado – Parte II

  1. Imagino que tenha sido um dia super cansativo, daqueles cheios de dores nas pernas e nas costas, que só apetece ir para casa tomar uma banhoca e dormir umas 48 horas, mas para mim a ler daqui deste lado, só me apeteceu sorrir e pensar que se estivesses cá em Portugal também eu te pedia para ser tua filha adoptiva da cozinha 🙂

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  2. Que semana Ana… UFFAA!!!
    Acredito que estejas de rastos mas há que seguir em frente certo?
    R**** partam od maçons mais as suas “velhotas” teenagers…, lol!!
    Pronto, esta batalha está vencida e agora há que vencer o resto das batalhas para vencer a guerra, mas olha, se te serve de conforto e alegria, fiz o chèvre chaud e que delícia. Ninguém reclamou e é para repetir muitas vezes e em jantares com visitas, pois além de lindo, é mesmo maravilhoso. Amanhã publico e espero ter feito justiça à tua obra de arte, lol!
    Um beijinho grande,
    Lia.

    P.S. Também quero ser adoptada por ti na cozinha, portanto vem mas é aqui para a Escócia e eu prometo portar.me bem e nunca me esquecer das codornizes, lol.

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  3. Aqui está a segunda parte 😀 Isto parece uma novela 😛
    «É vegetariano?! Mas a entrada foi arenque!» hahaha! Imagino a tua reação, tem imensa piada (apesar de, provavelmente, não teres achado muita piada na altura…). Os vegetarianos não comem carne, mas quem não come carne (no sentido de carne-não-peixe) NÃO é vegetariano. É assim tão difícil de perceber, pessoal? 😛
    Não invejo nada a tua situação, fiquei irritada só de ler o teu texto!
    Ando a gostar muito do teu blog 😀

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