Ana - cozinheira

O cliente não tem sempre razão.

Antes de voltarmos às receitas, deixem-me apenas contar-vos o que tenho feito durante estes dias. Há novidades no Stortorget e pratos novos, saí para uma noite de copos e fofoca com os meus rapazes, fui passar o fim de semana a Gotemburgo, estou cheia de saudades e pronta para voltar ao trabalho amanhä. Como alguns de vocês já viram, a Anasbageri tem agora também instagram. As fotografias não são nada de especial, mas podem seguir o que vou fazendo no restaurante e no meu pouco tempo livre. Hoje deixo-vos com mais uma aventura maçónica, e que difícil foi esta noite.
Antes da Páscoa estava marcado no restaurante um jantar de ensaio para o banquete de Maio dos maçons.
O e mail de confirmação do jantar, chegou, com as receitas em anexo, sim meus amigos, há gente com um tal descaramento. Enviaram-nos as receitas. O HC chegou a fumegar à cozinha com o papel não mão. “Trata disto, eu não os quero nem ver”. No dia marcado cheguei mais cedo ao trabalho, preparei as receitas tal e qual como estes senhores tinham descrito, ajudei o serviço a preparar a mesa. Quando o HC telefonou eu tentei sossegá-lo: “tenho tudo feito, a carne está a descansar, cozinhada até aos sessenta graus vai secar, mas era o que a receita dizia. Não te preocupes, eles não podem reclamar, está tudo perfeito, o puré no forno a setenta graus, a entrada pronta, o bolo descongelado…”
Eu estava confiante, o HC que tem de os aguentar em reunião depois de reunião, nem tanto: “Ana, eles vão reclamar, prepara-te, há sempre qualquer coisa que não lhes agrada, tu não te aborreças com eles, mas ficas já avisada, vai haver queixas.”
Eram três, dois por volta dos cinquenta anos, mais sorridentes, um mais velho, de aspecto arrogante, a falar demasiado alto. Vi assim que se sentaram à mesa que a noite ia correr mal.
A entrada de salmão com creme de caviar vermelho foi servida, não houve reclamações.

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O prato principal, lombo de veado assado, puré de batatas e girassol batateiro, bacon, ervilhas e alcaparras e molho de vinho tinto, estava perfeito. (excepto a carne que eu achei demasiado assada.)
Assim que os pratos saíram da cozinha eu preparei-me para o embate. A menina do serviço estava desesperada, sozinha na sala de jantar, a tentar servir as outras mesas, ao mesmo tempo que abria garrafa de vinho depois de garrafa de vinho (seis no total) para a mesa dos maçons. Uns vinhos eram “intragáveis” outros “sabiam a limpa-vidros”….
Eu respirei fundo e fui falar com eles, os dois simpáticos, agradeceram a comida e disseram que estava tudo muito bom. O idiota mor desatou numa gritaria que a comida estava fria, o molho pouco espesso, o bacon demasiado frito, o puré frio. “E a carne?” perguntei eu, “A carne está muito boa”. (não estava.)

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Eu sentia os olhos dos outros clientes nas minhas costas, enquanto sorria e pedia desculpa pela comida aparentemente fria, fosse este o meu restaurante, tinha tirado o termómetro do bolso e humilhado publicamente o senhor maçon, mas não é.
Agradeci os comentários, e voltei à cozinha. Admito que telefonei ao HC imediatamente, é um vergonha bem sei, mas eu senti-me triste e humilhada perante todos os outros clientes que estavam a jantar connosco. (A menina da receção que entretanto tinha ouvido as reclamações, (da receção, imaginem os gritos), veio à cozinha dar-nos um abraço)
O HC lá me tentou aclamar, mas eu já tinha passado a fase de me rir e achar piada aos momentos mais ou menos surreais da nossa cozinha. “Não te importes, eu sei que fizeste um bom trabalho, eu não te disse que eles iam reclamar…. Quantas garrafas de vinho já provaram? As outras mesas já perceberam que a culpa não é da chef nem da comida, se eles estão aos gritos a recusar garrafa de vinho depois de garrafa de vinho….
Eu guardei todos os restos da comida em caixas para o HC provar no dia seguinte, mas ele recusou-se a olhar sequer para elas. “Eu sei que a tua comida é boa, prepara-te para servir estes pratos a 160 maçons, fizeste o jantar de ensaio, és responsável pelo banquete.”
O e mail do “maciota-mor” chegou 24 horas depois do jantar. Tinha adorado tudo, o bolo (um bolo seco que comprámos congelado, foi o que eles pediram) estava ótimo, a entrada excelente. O prato principal frio e a carne seca. A carne seca!!! (a mim tinha-me dito que estava muito boa.)….. O HC leu o e mail entre gargalhadas, eu continuo com o meu orgulho ferido.
Se depois de 9 de Maio não voltar a dar notícias é porque esfaqueei um maçon durante o banquete. Me aguardem.

5 thoughts on “O cliente não tem sempre razão.

  1. LOL, Ana por favor não esfaqueies ninguém, muito menos um Maçon, eh eh eh!
    Mas se te der vontade de lhe despejar uma molheira pela cabeça abaixo, aí já estou contigo!
    Mas no dia do banquete entope-te de cházinho para ver se não te enervas com eles 🙂

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  2. Eu começo a ler o teu post e fico logo nervosa 😛 Há situações que irritam mesmo, principalmente quando não podemos reclamar ou resmungar… Eu incitaria o esfaqueamento, mas vou ser pacifista e pedir-te para não esfaqueares ninguém! Haha 😛

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  3. Pois não Ana, não têm mesmo e mais: só quem nunca trabalhou com público é que usa essa máxima completamente infeliz e sem lógica.
    Esse pessoal, pelo que descreves no post, não percebe é nada de comida, por isso, o melhor, é poupares-te ao trabalho e dar-lhes sempre comida congelada e aquecida.
    Beijinhos,
    Lia.

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