A minha vida na Suécia · Ana - cozinheira · bolos e sobremesas

Alergias, intolerâncias e frescura generalizada. E o bolo com o qual sonho há anos

Corre a história de que Gordon Ramsay serviu caldo de galinha a um vegetariano e ainda se riu do facto que entretanto esclareceu tratar-se apenas de uma brincadeira. Eu duvido.

Nas cozinhas profissionais  todos os clientes com dietas diferentes do bife grelhado banhado em manteiga são olhados como  extraterrestres.

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Desde que assentei arraiais nos restaurantes que tenho sido eu a tratar das refeições dos chamados “clientes especiais”. Vegetarianos, vegans, alergias, intolerâncias, e infelizmente e acima de tudo, frescuras.

Acho que sou a única que aceita esta situação como um desafio e tem algum cuidado no que servimos por exemplo aos nossos clientes vegans.

Ninguém escolhe ter determinada alergia, e infelizmente já passamos por situações que podiam ter terminado mal, como por exemplo um cliente alérgico à proteína do leite, que foi identificado pelo empregado de mesa como tendo intolerância à lactose, vegans que são confundidos com vegetarianos….

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A mim não me aborrecem as escolhas que todos temos o direito de fazer no que diz respeito à nossa alimentação Aborrece-me que pessoas que sabem de ante mão que vão comer algo que não existe no menu, não deixem um pequeno aviso quando marcam mesa.

Aborrecem-me os intolerantes à lactose que nos fazem preparar um molho só para eles porque  o do menu contem manteiga, que atacam uma sobremesa cheia de natas e leite sem pestanejar. (isto depois de lhes terem sido oferecidas as opções sem lactose).

Nao há serviço nos restaurantes em que não sirvamos uma mão cheia de clientes com alguma alergia.

Era esta a situação quando eramos miúdos? Havia na altura pessoas que “nao se davam com o leite”, que “não faziam bem a digestão de…”

Hoje tudo são alergias, tudo são intolerâncias, chegamos receber listas de ingredientes e produtos que não podemos usar para esta ou aquela pessoa, e nisto meus amigos, as mulheres são muito piores do que os homens.

Nenhum restaurante  pode fazer um molho bechamel decente, e temos de optar por engrossar todos os molhos à custa de farinha  maizena ou de batata.DSC_0543

 

É claro que sofrer de uma séria alergia a “nuts” ou marisco é grave, e como profissionais nunca tomamos estas situações de ânimo leve, mas há também muita frescura, querer ser-se especial e infelizmente estar na moda.

Uma das meninas do serviço tem uma lista de alergias maior do que o menu, tudo desde especiarias a pimentos e claro intolerância à lactose. Todos os dias temos de lhe preparar uma refeição especial, excepto se for o meu curry, (nao digo mais nada), e os seus dois cappuccinos diários.

Deixem-me só antes de terminar este desabafo, dizer-vos que de entre todos os clientes com opções diferentes, e não estou aqui a referir alergias, nenhuns são tao easy going como os vegans.

Eu venho muitas vezes à sala de jantar falar com eles directamente para adaptar o que vou cozinhar aos seus gostos e a resposta que mais oiço é “Podes fazer qualquer coisa desde que seja vegan, não te preocupes.”

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O bolo de hoje não é vegan, mas é saboroso e ando há anos a sonhar com ele.

É  o bolo de clementinas que vi a Nigella fazer num programa há imensos anos. O tema era ai  e tal, fazemos o bolo de noite para comer no outro dia, e eu lembro-me de pensar, então esta rapariga com duas crianças a dormir esta a usar o processador de alimentos durante a noite?!

Fácil, fácil fácil e maravilhoso como só a Nigella sabe fazer. Fofinho e leve, pouco doce e muito aromático. Os meus clientes com alergia ao glúten já têm a sobremesa escolhida.

 

Bolo de clementinas e amêndoa da Nigella – sem glúten e sem lactose

 

Ingredientes:

  • 375 g de clementinas com casca
  • 6 ovos grandes
  • 225 g de açúcar (usei apenas 200)
  • 250 g de farinha de amêndoas
  • 1 colher de chá de fermento em pó (nao usei e nao fez diferenca)

 

Preparação:

Na véspera ou 3 horas antes de preparar o bolo, cozam as clementinas inteiras  durante 2 horas, escorram a água, deixem arrefecer.

Aqueçam o forno a 170°C (190°C segundo a Nigella).

Barrem uma forma com óleo ou manteiga ou margarina.

Num processador de alimentos batam as clementinas inteiras, casca e tudo, acrescentem os restantes ingredientes e voltem a bater.

Deitem o preparado na forma e levem ao forno aproximadamente 40 minutos ou até o centro do bolo estar cozido.

Deixem arrefecer, desenformem e sirvam.

12 thoughts on “Alergias, intolerâncias e frescura generalizada. E o bolo com o qual sonho há anos

  1. Não sou 100% vegetariana, já fui durante muitos anos, hoje em dia não como carne vermelha (a resposta aqui é sempre “e porco?”) e, sempre que possível, continuo a optar por refeições vegetarianas. É uma escolha que, até há um ou dois anos, era realmente complicada para comer fora. Muitas vezes acabava a comer batatas com arroz e umas folhas de alface, mas eu é que me tinha de adaptar ao menu. Hoje em dia quase todos os restaurantes têm uma opção vegetariana (massa com vegetais) e, na pior das hipóteses, têm omeletes!
    No entanto, há muitas esquisitices que me apetece dizer “então escolhe outra coisa”, como o “não gosto de cogumelos, mas quero comer este bife com cogumelos”.
    Há uns anos fui à Alemanha numa altura em que me tinham retirado o glúten da alimentação para ver se as dores nas articulações melhoravam. Imagina-me num restaurante típico alemão a dizer que não bebo cerveja (porque não gosto), não como glúten, nem porco. Em 5 dias, 3 deles jantei no hotel sozinha onde o serviço de quartos tinha muitas opções para mim.

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  2. Olá Ana. Já sigo o blog há alguns anos e nunca o tinha comentado mas hoje tem de ser. Em meados de 2015 comecei a ter sintomas e reacções fisicas estranhas sempre que comia e foi-me diagnosticado pelo gastro intolerância à lactose e frutose. Como deve imaginar não foi nada fácil adaptar-me a estas limitações (para quem comia montes de legumes e 5/6 peças de fruta por dia…). Em casa tentava ao máximo comer o que sabia que não me faria mal, mas, se tivesse de comer em restaurantes tentava evitar mas nunca pedi que alterassem um prato (imagine o que seria com tantas limitações). Nas sobremesas então seria para esquecer. Simplesmente não pedia ou andava 1/2 dias a sofrer as consequências. Se é uma alergia entendo que a pessoa não possa mesmo comer, até porque pode colocar em risco a sua vida, mas numa intolerância concordo que por vezes exageram. E um dia não são dias. Nos dias seguintes faz-se um esforço para controlar, sofre-se as dores mas vai tudo ao lugar. E por isso mesmo só o faço quando o prato/sobremesa vale mesmo a pena ;D
    Bem, isto de pedir uma sobremesa sem lactose e sem frutose (nada de açucares, qualquer tipo de adoçantes ou frutas) devia ser um belo desafio…

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  3. Só me rio Ana!!!!
    A sério!! Acreditas que quando vi o programa da Nigella a fazer o bolo pensei exactamente o mesmo que tu??? Que giro!
    Olha, não sabia das Daring Kitchen mas já me inscrevi. Obrigada peia dica…
    Já fiz esse bolo e sei que é maravilhoso e húmido e magnífico e tenho de fazê-lo de novo, agora que me lembraste…
    Ana, nem imaginas como concordo contigo neste teu texto e o quanto me irritam as pessoas que, de repente e do nada, são alérgicas a tudo e mais alguma coisa e aderiram à moda do “…free” só porque é moda e é notório: SÓ PORQUE É MODA!!!!… tenho de berrar, porque me irrita este assunto, lol.
    As pessoas que de facto têm alergias sofrem imenso porque não podem desfrutar das coisas e iguarias que os outros “normais” podem e os da “moda”, armam-se em alérgicos para poder estar na moda e só porque, nas suas cabacinhas tontas, lhes parece “ser bem…”, enfim…
    Vou andando para não falar demais, lol!!
    Um beijinho minha querida e excelente fim de semana para ti,
    Lia

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  4. Verdade. Há muitas coisas que de repente… é moda.
    Quando li o teu post e, particularmente a frase “temos de optar por engrossar todos os molhos à custa de farinha maizena ou de batata”, pensei logo: -olha, ainda não chegou lá a mais recente moda, a dieta paleo, esses comem carnes e legumes com fartura mas, em contrapartida, zero arroz, massa, batata, açúcar e farinha. 😉
    Venha o bolo de clementinas! 😉

    PS-Também tinha visto o desafio e, por vezes ainda me aventuro nessas coisas (de experimentar) mas acabo sempre por nunca participar porque as minhas fotos são uma tristeza. 😉

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  5. Oi Ana,
    Bom dia, concordo contigo há muita frescura e moda anti-glúten, anti – lactose. E depois há as alergias.O meu filho de 8 anos é alérgico à proteína do leite de vaca e ao ovo. A vida por aqui não é fácil como deves imaginar porque me esforço por comermos todos o mesmo. Comer fora? Nada disso, a não ser fevera grelhada ou frango assado e depois de longas conversas sobre os ingredientes, se vou ao shopping levo a marmita. É assim a vida mas, a verdade é que seria uma maravilha poder ir a um sítio onde ele pudesse comer sem restrições. ..
    Pontos de vista, necessidades tudo nos leva a uma vida com marmita atrás e não sair de casa sem planear cada passo.
    bj
    Raquelita

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  6. Uau, realmente pelo que descreves será muito cansativo! Imagino só as invenções… É que não duvido de que haja gente com restrições (por opção ou não), mas também há quem não as tenha e goste de dizer que tem. Essa de no fim comer uma sobremesa com natas e leite é do melhor, não devem ter vergonha na cara 😛 Desejo-te paciência para lidar com isso!
    Esse bolinho ao menos resolve muita coisa – e tão bom 😀

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  7. Olá Ana, deve ser difícil mesmo ter que agradar a todos. Eu penso assim se tenho alergia a isso, intolerância aquilo, sou vegana então porque não vou comer em um restaurante especial?
    Acho que o certo mesmo é comermos de tudo, mas de uma maneira balanceada, sem exageros. Quando vi a foto do bolo pensei que era de cenoura, parece delicioso!
    Um beijinho! ❤

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  8. Olá Ana, dei pelo seu blog através do Acre e Doce da Ilídia. Gosto muito destes bolos com amêndoa em vez de farinha, da tradição judaica sefardita, que se encontram no sul da Península ibérica, Mediterrâneo e África do Norte. Faço um semelhante com laranja dos livros da Claudia Roden e vou experimentar com clementinas. Já me tenho esquecido de pôr o fermento e não, não faz diferença 🙂 Um abraço do outro lado do Mar do Norte,
    Ana

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  9. Gosto da ideia, mas uma das coisas que normalmente as pessoas são alérgicas é a frutos de casca rija, creio não alterar a receita se utilizar farinha sem gluten as quantidades serão as mesmas ? Esta opção calculo que vai tornar talvez o bolo mais seco mas tenho este problema com o meu filho.
    Obrigado por a atenção, um feliz natal

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    1. Luis, Para lhe ser honesta nao sei que tipo de farinha existe em Portugal sem gluten, mas teoricamente funcionará. A massa deste bolo é muito liquida, talvez possa tentar a mesma consistência?
      Boa sorte pela receita e um feliz Natal para si e para a sua família 🙂

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