Por aí

Quase há um ano – o final do TDS e a nossa noite nos Alpes

Este é um post que me tem custado escrever e é agora a menos de duas semanas de mais uma prova que finalmente me forcei a sentar e registar como correu a segunda parte do TDS do ano passado.12002807_981636211894119_7150049840409690360_n.jpg

Se não acompanharam o relato das nossas férias do ano passado, aqui ficam os primeiros episódios.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

TDS – 2015 parte 1

Na última parte da nossa aventura, lembrar-se-ao que tínhamos deixado o Pedro ao km 51, em Bourg Saint Maurice, ainda fresco e muito bem-disposto, descansou 20 minutos, eu enchi as garrafas de água, trocou as baterias do telefone, encheu os bolsinhos de mais gel, e combinámos com ele encontrar-mo-nos daí a 15 kms em Cormet de Roselend.

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Eram “apenas” 15kms. Estava muito calor e o sol a pico, o viking ainda queria ir almoçar, mas eu sabia que se seguia uma subida difícil e acabámos por nos meter imediatamente no carro e seguir para o próximo ponto. (Pensado eu que haveria aí onde pudéssemos comer e descansar antes do Pedro chegar.)

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Eram duas e meia quando ele partiu e recebemos imediatamente a mensagem de que a hora prevista para a chegada ao Cormet de Roselend era 18.50.

Nós chegamos claro mais cedo. Era uma local perdido no meio de nada…..nada. Havia uma tenda da prova, e dezenas de carros estacionados. Para além disso só vaquinhas.

Não havia também telefone, nem GPS, nem caixas automáticas. O que havia era assistentes montes acima montes abaixo de braços esticados aos céus na esperança de receber as mensagens automáticas que a organização nos envia cada vez que os corredores passam por um ponto de controlo.

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Nós esperámos. O que eu não sabia, mas já suspeitava em silencio porque não queria preocupar o viking, era que para o meu mano  a tarde estava a ser muito difícil.

E foi só depois de o ter encontrado, e já em casa visto imagens desta parte da prova, que me apercebi da dificuldade desta subida. Esqueçam tudo o que sabem ou imaginam sobre os Alpes, não  era verdinho nem bucólico. Não havia árvores nem sombras, uma paisagem demi deserta, calor, calor, sol….

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Perto de Cormet de Roselend havia um “abrigo”, era uma casinha de madeira, onde duas senhoras vendiam fatias de tarte, sandes ou omeletes. Não estivesse em tao preocupada com o Pedro, e teria apreciado um pouco mais esta tarde.

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Visitamos também uma vilazinha linda, onde bebemos café, e descansamos um pouco. Por esta altura sabíamos já que a chegada do meu mano estava prevista para as 22.00.

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Voltámos a subir a montanha, caiu a noite, começou a arrefecer, esperámos e esperámos.

Às 21.30 lá chegou o meu mano, comeu sopa e tentou descansar, eu vi perfeitamente que ele estava a fazer um esforço para parecer animado e para não nos preocupar. Saiu para o escuro, sozinho, montanha acima, e eu “o teu amigo não vai contigo?”, e ele “eles já me apanham.”, era mentira, tinham abandonado a prova.

Ver os participantes a desaparecer no escuro, só com as luzinhas dos frontais, é para os assistentes um pouco difícil, ouvem-se os gritos de boa sorte, de incentivo, “Allez papa! Allez! Allez!! Voltámos para o carro.

 

As próximas oito horas foram as piores. Nós perdemo-nos várias vezes na estrada e por pouco não caímos por uma ribanceira no meio de nada às três da manha.

Enviei uma mensagem ao Pedro para lhe dizer que seguíamos para o próximo ponto de assistência porque não conseguíamos chegar aos postos de controlo mais pequenos.

O meu coração encolheu para o tamanho de uma clementina, preocupada com o meu mano a correr montanha acima montanha abaixo, e com o viking que estava ao volante há quase 24 horas.

Chegámos a Les Contamines e esperámos. Desta vez desceu o viking para fazer a assistência ao Pedro que, estando a correr há quase 24 horas, ainda foi preparar uma sandes para o Magnus. (nao há mano como o meu mano.)

Eu encontrei-o já fora da área da assistência para lhe voltar a mostrar o mapa e animá-lo, “está quase, quase, tens de ganhar a meia hora que perdeste.”

Ainda faltava uma boa subida e ele tinha partido um bastão, o que não ajudou à sua boa disposição.

Eu irmã mais velha e mãe emprestada queria dizer-lhe “mete-te já no carro e vamos para o hotel, qual corrida qual trail! “, mas com o coração a esta altura já do tamanho de uma uva passa, despachei-o monte acima: “meia hora Pedro, tens de ganhar meia hora!”

O viking e eu voltámos a Chamonix, tomámos banho  fomos para Les Houches, o meu mano passou aqui às 10.40 a.m, estávamos já ao km 111. Um dos seus amigos veio também  para o acompanhar e embora já meio morto lá se animou, e seguiu para Chamonix.

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Nós esperámos por ele perto da meta, a estoirar de orgulho, eu claro, até chorei. O meu mano foi um dos 2/3 de participantes que cruzou a linha da meta, e mesmo que tivesse sido forçado a abandonar a prova,  para nós poder fazer parte desta sua aventura foi uma honra 🙂

 

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As meias que o Pedro usou no TDS na parede da minha cozinha.

Este ano seguimos os três para o UTMB!

Vejam aqui o vídeo da chegada do Pedro.

 

se quiserem ver mais sobre o TDS há imensos vídeos no youtube, este feito por um grupo de holandeses é um dos meus favoritos.

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