A minha vida na Suécia

Este foi o primeiro e é o último bolo que fiz para o Jan

Tenho ao longo destes quase sete anos, partilhado muitos momentos da minha vida convosco, como me mudei e me adaptei a viver na Suécia, como decidi mudar de profissão, o meu dia-a-dia, as minhas alegrias e desapontamentos no restaurante, as nossas férias….

O post de hoje não é o mais feliz, ninguém vai comentar que sai sempre daqui bem-disposto, mas no meu blogue, como na vida, há bons e maus momentos.

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O pai do meu viking morreu.

O meu sogro já tinha passado bem dos oitenta, andava adoentado há anos, morreu em casa, na caminha dele enquanto dormia. Para ele e para nós, foi uma bênção.

Eu gostava que na cerimónia antes do funeral, tivesse sido a família a falar um pouco sobre ele, eu gostava que depois do cemitério tivéssemos ido comer ao seu fumeiro de peixe favorito, ou ao clube de golfe, ou que tivéssemos ido fazer um piquenique ao lago onde ia de vez em quando pescar com o meu rapaz.

Gostava que tivéssemos bebido chá, e comido scones, com clotted cream e compotas do Fortnum & Mason que ele adorava.

A mulher do meu sogro quis um funeral mais formal e pesado, fomos para casa deles depois. Nada, mais de quinze dias depois de ele nos ter deixado foi tocado, o livro que estava a ler está ainda ao lado do seu  sofá, o maço de cigarros, os óculos.

O meu sogro teve uma vida cheia, conheceu o mundo, casou duas vezes, teve dois filhos, dois netos e um bisneto. Do tempo que viveu em Londres ficou-lhe o sotaque, o snobismo exacerbado, e a paixão por tudo o que é british. Falava comigo sempre em inglês, a televisão lá em casa estava permanentemente na BBC e acabava todas as frases com “That is bloody stupid!” ou “You see?”

Embora separado há mais de trinta anos da Evelyn, nunca deixaram de ser amigos, e telefonavam um ao outro todos os dias.

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Era um toleirão de primeira e estava sempre a encomendar roupa online de uma alfeitaria em Londres, quando não podia lá ir pessoalmente.

Lia compulsivamente biografias, nós andávamos sempre à procura de mais livros sobre Churchill. O seu autor favorito era P. G. Wodehouse, tinha estantes e estantes dedicadas a este escritor.

E  era tão guloso, tão guloso o meu sogro. Na cozinha havia sempre cestas cheias de chocolate estilo candy, saía de casa de propósito para comprar croissants (telefonava antes para encomendar), e adorava os meus bolos.

Há muitos anos, tinha eu chegado à Suécia há um par de meses, fiz para celebrar o dia do pai, um bolo para o meu sogro de chocolate e com folhas de massapão. (Na Suécia o dia do pai é em Novembro).

Na altura vivíamos no nosso primeiro apartamento em tínhamos um forno velhito  que acabou por me queimar o topo do bolo. Estava eu a raspar o queimado do bolo quando me viro e vejo o Lestat a andar na mesa da cozinha por cima do meu massapão. Eu lá salvei o meu bolo  o melhor que pude, mas não foi o meu melhor trabalho.

Durante todos estes anos fiz muitos bolos para o meu sogro, fiz-lhe scones, sentei-me com ele a beber chá e a contar-lhe as aventuras da vossa última visita a Londres. Ele tinha sempre qualquer coisa para me contar sobre futebol ou sobre o Cristiano Ronaldo, e eu respondia-lhe  religiosamente: “Mas Jan, eu não gosto de bola, nem sei em que clube joga o rapaz….!” E ele deitava mais três cubos de açúcar no chá, acendia um cigarro e olhava par mim como que a dizer: “Tu não deves ser portuguesa, não me convences.”

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Depois do funeral fomos, como vos estava a contar, para casa do meu sogro, beber café e comer. A mim foi-me permitido trazer um bolo, e eu escolhi voltar a fazer o bolo de chocolate decorado com folhas. O recheio é ganache com earl grey e doce de laranja, muito inglês, tinha de ser. (as folhas são do jardim da minha sogra)

Têm sido dias difíceis meus amigos, o meu Viking aceitou “bem” a partida do pai, e racionalmente compreende que embora nos custe a sua ausência,  é a lei da vida, mas custa.

O meu viking foi hoje ver a Evelyn, que por ser a ex mulher tem sido um pouco posta de lado infelizmente,  e eu aproveitei estar sozinha para  poder escrever e pensar um bocadinho no Jan.

Obrigada por me terem deixado partilhar convosco um pouco da memória do meu sogro.

A Padaria volta a posts mais animados esta semana.

8 thoughts on “Este foi o primeiro e é o último bolo que fiz para o Jan

  1. Ana, é triste sim, a partida de alguém. Mais ainda quando se tem afinidades sejam elas quais forem. Jan deve ter tido uma vida feliz, manteve actividades e gostos que lhe eram queridos e no fim, aquilo que todos ambicionamos: uma morte pacífica, quem sabe feliz até no sonho. Não estará mais fisicamente mas no coração de todos e cada um que o amaram. Deveriam ficar felizes e contentemos por ele!

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  2. Ohhh Ana querida,
    Que post lindo. O teu sogro estaria emocionado e eu, sinceramente, estou comovida. És única e só tu para escrever tão lindamente sobre algo tão triste.
    Um beijinho Ana e obrigada por tão lindas partilhas.
    Lia

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  3. Obrigada por me teres feito borrar a maquilhagem, pá!! Gosto particularmente do teu blog por isto mesmo: é real. Não há aqui um pó de arroz a fazer tudo muito bom e abençoado e ai que bafejados pela sorte somos nada nos toca, não. Aqui há gente real, e vida real. Mas com este post apercebi-me que há, acima de tudo, muita sabedoria, muita alma e um coração fora do comum. O meu sogro faleceu este ano tb, e foi uma perda muito dura, foi tudo muito repentino, um dia recebeu o diagnóstico da doença e parece que dias depois estava tudo acabado. Não foi bem assim, claro, custou muito, ao meu marido, á minha cunhada, mas principalmente ao meu cunhado mais novo que ainda não ultrapassou nem aceitou. Eu na dor calo tudo, recuso falar – seja sobre a dor seja sobre o que for, isolo-me e pronto – e não acho que seja a melhor maneira de lidar com as coisas. O que vi aqui, o que li, isto sim. Toca a alma de quem por cá passa, certamente, e dei por mim quase a visualizar o teu sogro, que nunca vi. Foi um retrato muito sentido e muito vivo. Gostei muito. Ia eu falar da cena da pizza e discordar por completo da tua opinião, e olha, já nem sou capaz. Força e abraços e beijos para ti e para o teu viking!!
    https://bloglairdutemps.blogspot.pt/

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  4. Olá minha querida,
    gostei tanto de ler o teu post. Acabei de o ler emocionada obviamente, porque a morte é sempre um tema que mexe muito connosco, mas também com uma sensação de conforto, porque se nota que o teu sogro foi uma pessoa muito amada, e que viveu de bem com a vida.
    Um abraço carregadinho de força para ti e para o teu viking.
    Beijinhos
    Marta

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